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Fernando Andrade – O tema na crônica precisa ter um caldo, um sabor a mais. A acuidade do banal, o trabalho com as palavras. O olhar agudo sobre as coisas. Como você processa tudo isso, ao começar a escrever um livro de crônicas. Comente.
Cássio Zanatta: Sendo bem honesto, eu não tenho a pretensão de escrever livros de crônicas. Escrevo crônicas, umas duas por semana. Depois escolho, com a ajuda da editora e da opinião de pessoas que admiro, as melhores, ou as menos datadas, mais capazes de resistir à passagem do tempo, e as reúno em livro.
De fato, a crônica nasce dessa parceria entre observação e linguagem. Este estranho ser que é o cronista deve estar atento, como eu digo, às “grandes pequeninices” – ou “pequenas grandiosidades”, como queira: algum acontecimento ou sensação que poderia passar despercebido pelas outras pessoas. É desse material, um quase nada, os cacos do cotidiano, que o cronista extrai seus assuntos. E com sua voz, com sua escrita burilada por muitos anos, o transforma em um texto de qualidade. O “pulo do gato” não está no acontecimento em si, mas no jeito com que ele é contado, pela voz particular do cronista. Um mesmo fato, na prosa de um Luis Fernando Veríssimo, pode fazer o leitor se dobrar de rir; na visão de um Paulo Mendes Campos, pode fazê-lo se emocionar.
Fernando Andrade – “A vida modo de usar” é o nome do livro do francês George Perec, que seria uma epígrafe ótima para fomentar crônicas. Comente.
Cássio Zanatta: Seria mesmo uma ótima epígrafe. A vida, da parte do cronista, funciona de um jeito diferente do “normal”. Sem ter a menor pretensão de ensinar ou julgar o que ou quem quer que seja, ele mostra um lado, digamos, mais interessante, mais “lírico” da vida.
E dificilmente ele conseguiria isso se não fosse seu próprio jeito de viver.
O grande cronista curitibano Raul Drewnick tem um pensamento perfeito nesse sentido: “Quando eu escrevia crônicas, parecia um político em campanha. Cumprimentava os postes do meu bairro, conversava com as árvores, assobiava para os cachorros. É o que há de melhor em ser cronista: essa camaradagem com tudo, essa impressão de que nem sempre a literatura precisa ser a tia sisuda que, para não manchar a pele, nunca se expõe ao sol.”
Fernando Andrade – Como o cotidiano pode se transformar em matéria poética numa crônica, só através da linguagem.
Comente.
Cássio Zanatta: Como qualquer pessoa, o cronista tropeça num buraco na calçada. Como nenhuma outra pessoa, ele extrai desse acontecimento banal algo a mais, revestido de humor, em geral, e de poesia, o que é mais difícil, mas que deixa o texto muito mais rico. Ao cair no buraco, o cronista mergulha numa lembrança, numa emoção particular, que nada tem a ver com a fundura do buraco, se ele se machucou, se perdeu o sapato, se o pessoal em volta caiu na gargalhada, nada. O fato transporta o cronista a uma outra dimensão, interna, pessoal. O que motivou o acontecimento cede lugar à sensação. Crônica não é poesia, mas quanto mais chegar perto, melhor ela fica.
Fernando Andrade – Tenho reparado em alguns cronistas que eles mudam de assunto numa mesma crônica. Você é adepto desta vertente.
Cássio Zanatta: Com muito orgulho, fico honrado com sua observação. O maior crítico brasileiro, Antônio Cândido, ele mesmo um ferrenho defensor do gênero como uma expressão de linguagem muito brasileira, dizia que a crônica era como uma “conversa ao rês do chão”. O que ele queria dizer com isso? Que, às vezes, a gente tem a impressão, ao ler uma boa crônica, de que está batendo um papo, sentado lado a lado com o escritor. E, você sabe, uma boa conversa fica pulando de um assunto para outro. Como um novelo de lã feito de palavras, que aos poucos vai se soltando e ora vai pra lá, ora pra cá, sem às vezes sair do lugar. A dificuldade está em manter, com muito talento, a atenção e interesse do leitor nessa viagem.
O maior cronista brasileiro, Rubem Braga, era um mestre nessas divagações, que pareciam não querer chegar a nada – e não chegavam mesmo, o segredo e prazer estavam no texto, em sua fluidez, na sua lapidação. A esse respeito, o imenso poeta Manuel Bandeira dizia que “O Braga, quando tem assunto, é ótimo.
Quando não tem, é melhor ainda”.
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