Fernando Andrade entrevista o escritor Benilson Toniolo sobre o ‘Depois do último dia’

Benilson Toniolo DEPOIS DO ULTIMO DIA - Fernando Andrade entrevista o escritor Benilson Toniolo sobre o 'Depois do último dia'

 
 
 

Fernando Andrade – Seu livro, romance, se apoia numa história muito bem contada, e sua preocupação com o espaço linguístico, aqui reunindo vocabulário, prosódia, coloquial, dá ao romance uma envergadura clássica. Como foi este processo?

Benilson Toniolo: A história se desenrola sempre no mesmo ambiente: o quarto de um hospital, ocasião em que o personagem principal, migrante nordestino radicado em uma grande cidade do litoral paulista, está em tratamento médico e luta para se recuperar de uma infecção. Durante a internação, enquanto espera que o tratamento e a medicação façam efeito para que possa voltar para casa e para seu trabalho, ele alterna seu tempo entre observar o ambiente à sua volta e as memórias de sua vida desde a infância com a família, na Paraíba, até a entrada no hospital.

A história é narrada em primeira pessoa, então é natural que o discurso seja coloquial, confuso e, em muitos momentos, desordenado – porque é assim que o personagem é construído, é dessa forma que fomos feitos, com as imperfeições, buscas, fugas e atalhos que nos caracterizam.

Quanto aos diálogos, que de certa forma representam o alicerce da narrativa, são apenas um lado da história – ou seja, a de quem está contando. Certamente a história seria diferente se as memórias ou os relatos dos diálogos  fossem contados a partir do depoimentos dos outros personagens, como o zelador, a faxineira, o síndico, os condôminos, a representante do escritório de contabilidade… cada narrativa está diretamente comprometida pelos interesses de quem a reproduz.

Fernando Andrade – A diáspora nordestina, aqui na região sudeste, não é muito desenvolvida, tanto por escritores do eixo Rio- São Paulo.  Quais os motivos para  adotar os temas e as abordagens da sua história?

Benilson Toniolo: Meu pai foi um retirante proveniente da Serra da Barriga, em Alagoas, que migrou para o sudeste na segunda metade dos anos 1950 junto com sua família em busca de melhores condições de vida e de trabalho. Assim como muitos de sua origem e formação, chegou sem conhecer as letras, foi servente de pedreiro, alfabetizou-se a partir dos 25 anos de idade, quando já estava casado, fez curso de eletrônica por correspondência, foi dono de bar, consertador de rádios e aparelhos de televisão, aprendiz de barbeiro, apontador de jogo-de-bicho… nos dias de hoje, seria um exemplo de “empreendedorismo”.

Casou-se com minha mãe, tiveram três filhos, morreu jovem, de câncer, aos 67 anos.

O personagem principal de “Depois do Último Dia” retrata um pouco esse perfil de sonho que, de maneira geral, permeia a trajetória do indivíduo que, muitas vezes sem mesmo saber por qual motivo, ou por quais motivos, deixa seu lugar de nascimento para se aventurar em um outro lugar que ele nunca viu, distante de sua casa e onde ele geralmente não se reconhece. É um pouco também a trajetória humana sobre a Terra, não? A insatisfação com o que já existe e a esperança que move os nossos passos em busca de uma realidade melhor.

Existem histórias extraordinárias que formam essas grandes diásporas. A nordestina, de maneira especial, me toca pessoalmente, testemunha que fui, ainda que por pouco tempo, da experiência e da vivência do meu pai. Quando menino, eu o acompanhava ao trabalho e observava os comportamentos, os diálogos com os fregueses…

Uma passagem que está muito presente em minha memória é quando meu pai era chamado de “baiano”. Veja, não se trata de equívoco do lugar de origem e de procedência, mas uma espécie de provocação, de acentuar a condição de forasteiro do indivíduo dentro de seu próprio país.

Ao se referirem aos nordestinos nascidos em Alagoas, ou em outros estados daquela região, como “baianos”, com a entonação exagerada usada pelas pessoas para enfatizar o apelido, o que se está querendo é acentuar as diferenças e uma espécie de inferioridade de origem que está fundamentada no mais genuíno e descarado preconceito.

Durante a entrevista de emprego com o síndico do edifício, Gessandro também é chamado de “baiano”. Ele protesta de maneira comedida, porque precisa do emprego, assim como meu pai fazia para não aborrecer os fregueses do pequeno bar de pescadores que possuía. Então é a reprodução de um diálogo que presenciei quando menino.

São essas vivências, que a memória preservou e que busco resgatar em meu trabalho literário, que pretendo servir aos leitores como forma de destacar determinadas condições de um movimento migratório importante para a formação da sociedade brasileira, mas que muitas vezes parece querer se extinguir da memória nacional – ou pior, passar a ser encarado com a naturalidade de uma migração que o movimento jamais teve.

Fernando Andrade – Há certa ingenuidade no Gessandro com relação ao seu destino, como se houvesse certa bondade não sei se cristã, em reconhecer sua situação na vida. Me fale dessa percepção minha com relação ao seu personagem.

Benilson Toniolo: Acho que você tem razão. Gessandro é um sujeito ordeiro, pacato, sem grandes expectativas de crescimento na vida. Está bem adaptado à sua realidade econômica, familiar, na casinha simples que é o patrimônio deixado pelo pai. Quando a mãe resolve partir para o sudeste em busca do outro filho que migrou e parou de dar notícias, cabe a Gessandro o papel de apenas satisfazer esse desejo e sobreviver da melhor maneira que fosse possível a ambos quando chegam ao destino.

Não chega a ser uma versão masculina da Macabéa, mas o comportamento lembra um pouco – o de quem não faz questão nenhuma de sair da sombra, “para não incomodar”. Grande parte da massa de migrantes não quer mudar o estado das coisas. Quer apenas acessar uma vida melhor, menos sofrida e a possibilidade de, em algum momento, poder voltar para casa e terminar seus dias.

Aí sim, é um comportamento quase religioso – o de querer voltar para a origem, onde está a inocência, a lembrança da família, do acolhimento, do amor.

Fernando Andrade –  A política no seu espaço cênico, onde as classes C e D começam a olhar para extrema direita, no seu romance não é usado como panorama sócio-político, porque não coloriu de tintas políticas seu romance.  

Benilson Toniolo: O livro é essencialmente político, o enredo é político. A extrema-direita está claramente representada pelos condôminos, principalmente pelas figuras do síndico e da esposa. Gessandro é um semianalfabeto vindo de uma região empobrecida do país que vai trabalhar como biqueiro no maior porto do país. De lá, consegue uma vaga de porteiro, com carteira assinada, moradia no serviço – que se torna uma espécie de escravidão – e passa a construir um novo sonho: o de um dia querer ser zelador, quando o atual ocupante do cargo, seu amigo, chegar à aposentadoria. No fundo, ambos querem a mesma coisa: melhorar de vida e voltar para casa. Enquanto isso não acontece, vão vivendo da maneira que for possível. Qualquer sinal de melhoria, ainda que temporária, é encarada como grande conquista pessoal, resultado do esforço do indivíduo, e não do sistema em que ele está inserido.

As classes C e D, como você denomina, sempre ocuparam esse papel histórico, de tentar acessar e permanecer na órbita das elites, nem que seja para buscar prestígio e segurança, ainda que de maneira temporária. Não vejo esse comportamento como um fato atual, contemporâneo, mas sim uma postura coletiva, que caracteriza esse estrato social em razão de sua formação civilizatória.

A construção do romance busca, de alguma forma, enfatizar quem são os grupos que ocupam determinados espaços, como ocupam, de que maneira, por quais motivos e porque estão acomodados desta forma na construção da sociedade brasileira.

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