Fernando Andrade entrevista o poeta Samuel Marinho sobre ‘O livro das nuvens’

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Samuel Marinho  (1979, São Luís-MA), é autor do e-book Pequenos poemas sobre grandes amores (2002, edição do autor). Tem publicados pela Editora Litteralux os livros Poemas in outdoors (2018), Poemas de última geração (2019), finalista do prêmio Jabuti na categoria de poesia no ano de 2020, Fotografias para perfis fakes (2021) e  Antiquário moderno (2023). O livro das nuvens (Editora 7letras, 2025) é o seu mais recente trabalho.

 
 
 
 

Fernando Andrade. A sua poesia tem uma questão estética que liga som e sentido. No seu novo livro essa relação é forte e bonita. Você aborda também as interações sociais que se dão por meio da interconectividade. Fale um pouco dessas propostas.

Samuel Marinho. Essa questão do sonoro na minha poesia é algo bem orgânico e que aparece desde o primeiro livro que publiquei. Acredito que vem da forma como a poesia me tocou pela primeira vez, que foi ouvindo canções populares. Depois, surgiu  uma intenção de usar esses recursos rítmicos alternados a versos mais livres, o que, em especial neste “O livro das nuvens”, serve para causar uma tensão estética que se dá no enredo desenvolvido. E, sim, o livro trata essencialmente do quanto do tempo da vida contemporânea foi absorvido por meio das telas, propondo uma reflexão sobre a forma como interagimos hoje com as pessoas e com o mundo na era da (des)informação. Em dado momento, o poeta se deslumbra com o aparente óbvio: que é preciso apagar o azul das telas para ver melhor o céu estrelado.

Fernando Andrade.  Na poesia, o sentido não está à flor da pele, está sempre nos buracos nos lapsos da linguagem. O digital também tem suas escavações, seus desvios. Fale um pouco desta interação do digital com seu livro.

Samuel Marinho. A temática do “digital”, por assim dizer, sempre esteve presente na minha poesia, é algo inerente ao meu eu lírico, impressionar-se com as possibilidades desse “novo mundo”, mas também questionar sobre até onde iremos com essas conexões todas. A escavação do ultramoderno a que você se refere está refletida em vários poemas não só desse novo livro, e tenta alcançar desde percepções mínimas do cotidiano atrelado às interações digitais, até às formas como essa conectividade envolve relações mais complexas, como os amores por meios dos aplicativos, a hiper performance nas redes sociais (e seus reflexos psicológicos) e até questões que envolvem a geopolítica mundial.

Fernando Andrade. Sobre a musicalidade nos seus versos, parece que você compôs poemas-canções. Lendo em voz alta, percebe-se que há certo ritmo, tom, toada.  Fale desta questão rítmica em sua poesia. 

Samuel Marinho. Na primeira parte de “O livro das nuvens”, intitulada “Blue”, a rima, que sugere musicalidade, figura como algo que parece até programado por uma inteligência artificial, é proposital, para soar como uma ironia sutil ou até um grito desesperado pelo “belo” ausente. Lá está a temática mais pesada do livro, o poeta atordoado com as nuvens digitais e com as consequências advindas do excesso de exposição aos ecrãs. Na segunda parte do livro, “Ponto de orvalho”, que propõe uma redescoberta da natureza inicial, há uma quebra dessa expectativa rítmica na maioria dos poemas, sugerindo uma certa liberdade na expressão dos sentimentos. Então eu posso dizer que o recurso da rima nesse livro, por vezes, é reflexo de um tédio com o modo de vida contemporâneo exposto nas telas, em uma tentativa talvez vã de ver as coisas bonitas quando elas são torpes por dentro; enquanto que, noutro espectro, o verso livre é utilizado para tentar caminhos que apontam para um reencantamento sem subterfúgios com o mundo “in natura”, por vezes a surpreender o próprio poeta.

Fernando Andrade. Nuvens são espaços da imaginação e da criação. Fale um pouco do título desse seu novo livro.

Samuel Marinho.  O título para “O livro das nuvens” surgiu de um episódio inusitado.  Eu havia perdido, em um primeiro momento, várias anotações que estavam em blocos eletrônicos virtuais (o que é típico do meu processo de escrita), que resultariam depois nos poemas que estão sendo agora impressos pela Editora 7letras. Graças à ajuda de um sobrinho meu que gosta muito de tecnologia, eu consegui ter acesso novamente àquelas notas. Ele viu que havia a possibilidade de resgatar os escritos de algum lugar das nuvens digitais, a partir do meu antigo aparelho de celular, possibilidade que eu já havia descartado. Recuperados os poemas, veio a ideia de particionar o livro em duas seções bem definidas. A primeira parte, como já é característica da minha poética, usa e abusa do léxico tecnológico. É onde mais uma vez forma e conteúdo pretendem se complementar, visto que há uma preocupação para que o uso desses termos não seja mera gratuidade: eles estão ali para dialogar com questões dessa “vida contemporânea online”. Nesse primeiro momento, as nuvens referidas são as da apropriação do termo utilizado agora para designar a rede de computadores que permite o armazenamento de dados e o acesso a programas e a serviços remotos por meio da internet. Na segunda parte do livro, eu enveredo por uma temática nova na minha trajetória, onde se percebe um abandono por completo dos vocábulos de “última geração”, marca da natureza transformada. O poeta quer desvendar a palavra em sua acepção inicial, aquela que sempre existiu muito antes de nós, e que primeiro deu nome a essas coisas passageiras que vemos a todo instante nos céus e sob variadas formas (bastando reservar um momento do dia para erguer a cabeça e olhar um pouco para cima): as nuvens.

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