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Fernando Andrade. Seus contos parecem ter certo humor sardônico, aquela pimenta que o autor coloca sobre o enredo e personagens. Dá um efeito delicioso, descontraindo a leitura. Comente.
Assis Neto. Durante a minha vida de leitor, aprendi que, pelo menos na minha experiência pessoal, os enredos que mais me prendem a atenção, são aqueles que se aproximam dos extremos emocionais. Assim, os livros que me mantêm mais grudados são os que provocam paroxismos em alguns momentos, desde a ironia que quebra o ritmo até o mergulho num fluxo de consciência depressivo.
Fernando Andrade. Adorei o conto que dá título ao livro, uma fábula inquieta, e nonsense que provoca risos e satisfação. Como bolou esta história. Conte-me.
Assis Neto. O colecionador de lugares surgiu após a minha leitura de Cervantes. A ideia era criar um ambiente para redimir Dom Quixote de sua fama de esquizofrênico. É claro que ali também trabalho a ganância humana sobre esse pano de fundo, muito embora a intenção principal seja a criação dessa ironia com a história original.
Fernando Andrade. A novela Heitor no Cubo, difere um pouco dos contos por ter certa inquietação melancólica, um anti herói, sucumbido pelo fracasso e derrota. Comente esta narrativa.
Assis Neto. Hector no Cubo nasceu a partir de uma alegoria da Ilíada. Heitor se aprisiona no cubo, que emula as muralhas de Troia, após cometer um engano durante a sua vida, assemelhada a uma guerra. Seus equívocos durante a vida são fatais e conduzem ao seu destino. Procurei manter uma tensão centrada em fatalismo e, de fato, melancolia.
Fernando Andrade. o conto A farinha maldita, tem um suspense paródico, que brinca com as artimanhas do direito, é muito bem amarrado por você com desfecho gozador, e criativo. Fale dessa comédia de erros.
Assis Neto. A farinha maldita é um conto policial em que o propósito foi, realmente, carregar em passagens bem humoradas, muito embora a sua premissa parta de um homicídio, que não deixa de ser um fato trágico. A intenção era mesmo parodiar novelas policiais sem qualquer pretensão de menoscabar o gênero, que, aliás, acho um dos injustiçados da crítica literária.
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