Fernando Andrade entrevista o escritor André Klojda sobre o livro ‘Niemand’

Andre Klojda Niemand - Fernando Andrade entrevista o escritor André Klojda sobre o livro 'Niemand'
 
 
 
 

Fernando Andrade. Ao ler seu livro me passaram pela mente os livros do Kafka. A estrutura como parábola, o clima intimista e misterioso. Você comanda muito bem o andamento da narrativa. Fale um pouco se existe esta relação estética com o escritor Tcheco.

André Klojda. Kafka é uma das minhas principais influências literárias. Diria que é a principal, até, junto com Joyce, embora o meu jeito de absorver cada uma seja significativamente diferente. Fora um conto bem curto de “Imaginação”, chamado “Na repartição”, penso que Niemand seja meu único texto em que essa influência kafkiana esteja esteticamente pronunciada. Sendo franco – até porque a escrita de Niemand começa pouco depois de uma releitura de O castelo –, precisei, em alguns momentos, de maneira consciente, imprimir um estilo e uma percepção marcadamente próprios, para que a novela não parecesse “apenas” um exercício kafkiano. Espero ter conseguido, de alguma forma.

Fernando Andrade. Há sempre no seu discurso narrativo duas linhas que caminham juntas, como se uma fosse em branco, submersa na outra. O sublimado parece ser uma tônica na sua obra, talvez a imaginação do leitor neste seu livro tenha vital relevância para o desenho total da história.

André Klojda. Sim, sim. A imaginação é algo que me fascina – não à toa dá nome ao meu primeiro livro. Em Niemand, dados os contornos enevoados da narrativa e das paisagens, e mesmo da linguagem às vezes utilizada, acredito que a imaginação de quem lê seja especialmente atiçada.

Fernando Andrade. Eu diria que o personagem Niemand é um ponto de mutação (fuga) que gire o livro – o eixo da narrativa para algum outro sentido. Ou não, esperemos dele apenas acomodação…  Comente.

André Klojda. É um personagem curioso, mesmo. Lembro-me que, ao escrever o capítulo final, me surpreendi um pouco com o desfecho – embora ele não seja, em si mesmo, surpreendente… Talvez apenas irônico. É um fim inevitável; me parece que tanto Niemand quanto a narrativa não tinham como ir além. Nesse sentido, me soa um pouco como A cidade sitiada, de Clarice, quando a cidade e a protagonista precisam situar-se num lugar além-texto.

Fernando Andrade. Talvez este seu novo trabalho seja um valoroso estudo sobre a relação entre identidade e função laboral onde no mundo globalizado seu nome se confunde com sua função social, com seu trabalho. Comente.

André Klojda. É uma perspectiva interessante, que não me tinha ocorrido. Ainda que situada fora do espaço e do tempo em que nós vivemos, a realidade de Niemand é, decerto, um reflexo de muitas questões pelas quais a sociedade passa e passou. De todo modo, gostei bastante do seu insight – vou reler o livro com ele em mente.

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