Fernando Andrade entrevista o escritor José Fontenele

joséfontenele 2 - Fernando Andrade entrevista o escritor José Fontenele

 

FERNANDO  ANDRADEHá uma disparidade de afetos entre Damião e Laura. Laura quer ser mãe e vive a dor de não poder sê-la. Damião parece que não sabe vivenciar o luto, ou foge dele não experienciando a dor. Como foi situar estas duas posições de contar a relação do casal?  Você sentiu alguma dificuldade em uma das duas vozes? 

 JOSÉ FONTENELE – O grande ponto que é compartilhado de forma diferente entre dois é o luto. Enquanto Laura quer vivenciar o momento e a memória dos filhos mortos, Damião quer passar por cima, num entendimento mundano que não falar sobre tragédias é a chave para superar qualquer crise. Contudo, não é assim que acontece. A falta de comunicação entre os dois, o silêncio contínuo, o não-companheirismo entre eles vai rachando a relação e, pouco a pouco, ambos se voltam para questões mais particulares. A dificuldade (e maior exercício), foi escrever em primeira pessoa do ponto de vista feminino de Laura, para expressar a dor de perder seus filhos e a falta da maternidade que ela tanto deseja. Para mim, que nunca havia escrito em primeira pessoa pelo ponto de vista feminino, ainda mais em assunto dos mais sensíveis, foi um processo contínuo de tentativa e melhoramento até chegar no ponto que, como leitor, me agradou bastante. Tenho que citar que meus amigos leitores-betas também me ajudaram a chegar em um limiar em que o lamento de Laura fosse correto e respeitoso.

 

FERNANDO ANDRADEDamião perece situar-se entre o neurótico e o paranoico na relação com o entorno. Ele vê animais em todos os relacionamentos que tem, ele se torna, será uma presa do sistema? Casamento, trabalho? Age como ameaça-impulso e tem assim uma visão bem distorcida da realidade. Por que você usou a animalidade para pintar este perfil do personagem? Ela te auxiliou ou dificultou na narrativa? 

JOSÉ FONTENELE – Usei Damião para falar de o quanto as pessoas por vezes se animalizam sem perceber. Damião é uma personagem que perdeu a empatia (uma das principais qualidades humanas), e não consegue se colocar no lugar do próximo, contudo, também consegue enxergar, de um ponto de vista fabular, os animais que nos rodeiam como humanos. Sua especificidade é que, por não ter empatia, ele também não tem consciência efetiva de o que isso significa. Para ele, é como se fosse uma visão que traz consigo uma espécie de medo primitivo, uma ameaça, como se aquela aparência animalizada o caçasse inconscientemente. Ele se sente uma presa frente aos homens-animais. A construção de Damião foi muito clara para mim porque parte dessa observação de como algumas pessoas ao nosso redor não tem empatia, não são solidárias, e vivem totalmente como se ainda fossem animais querendo resguardar o seu território e suas posses. Não sei se ele é uma vítima de suas responsabilidades, acredito que o mais correto é que ele esqueceu das qualidades que o fazem humano.

 

FERNANDO ANDRADEA arte plástica entra na narrativa como um contraponto interessante às dificuldades emocionais de Laura. É o ponto da sublimação da arte perante o princípio da realidade dura e realista. O que a pintura trouxe à personagem e a história em si?

JOSÉ FONTENELE – A pintura trouxe uma forma de expressão verborrágica e intensa que Laura pouco encontra em si mesma. Para a história, como você escreveu, as artes plásticas trouxeram um contraponto frente ao período de luto da personagem, contudo, acredito que também contribuíram como um fator de desequilíbrio para Damião. As pinturas incomodam o marido a ponto de ele não querer saber sobre o que elas tratam, mas Damião fica desconcertado quando observa certos quadros. Esse descontrole atinge o marido de uma forma que ele não processa conscientemente, por isso ele se sente contrariado e desconfortável quando Laura volta a pintar quadros e tomar lições particulares sobre o ofício. Ainda no ponto de vista narrativo, a pintura me possibilitou incluir personagens que, se por um lado ajudam o processo de luto de Laura, também batem de frente com Damião e evoluem a história. As Artes Plásticas não são inofensivas.

 

FERNANDO ANDRADE Há vários personagens periféricos muito bem ministrados por você que de certa forma contam as diferentes formas de sexualidades e de convivência entre pessoas. O componente de fábula é forte nesta pintura, mas há também outros elementos de estilos narrativos no desenho dos personagens e, portanto, na formatação do romance em geral. Por falar nisso se fosse definir o gênero do seu romance em qual linha você o situaria? 

JOSÉ FONTENELE – Sobre esses personagens, eles surgiram exatamente no momento em que eu os escrevia, sem aviso prévio. Logo depois que os escrevi, ainda sem pensar direito, fiquei lendo e relendo várias vezes e gostei do todo. Depois fui fazer pesquisas para entender melhor o que eu estava escrevendo e isso me ajudou a pensar em como iria abordar essas diferentes sexualidades de forma interessante na história. Foi um grande aprendizado particular. Acho que o componente da fábula vai ficando mais crescente ao longo da leitura, contudo não altera o entendimento principal de que é uma história de uma mulher que deseja ser mãe. Assim, não consigo pensar em qual gênero o “Natureza Morta” se encaixe. Tomara que os leitores saibam. 

 

Please follow and like us:
Be the first to comment

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial